CADERNO DE VIAGENS - suplemento de "Aparas de Escrita"

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quarta-feira, junho 08, 2005

PISCADELA DE OLHO, OU COLETE DE SALVAÇÃO?

Em política nem tudo o que parece é, e há coisas que ontem não parecia virem a tornar-se no que hoje são. Portanto, não concordo com a afirmação frequente de que em política tudo o que parece é, e muito menos quando o que é pode parecer várias coisas, com tendência para convergirem num ponto, ou divergindo dele.
Por isso, as recentes declarações do Partido Comunista do Brasil (PC do B) devem ser apreciadas com algum cuidado crítico.
No manifesto aprovado em 3 de Junho, em Brasília, vem o PC do B, pela voz da sua comissão política nacional, distribuir generosos elogios à acção governativa do presidente Lula da Silva, avançando com algumas afirmações de cosmética, como as referentes à actuação face ao "caso Correios" (objecto da nossa crónica de 27 de Maio). Isto a pretexto da necessidade de "defender o governo Lula da ofensiva eleitoreira da oposição".
Gesto de solidariedade para com um partido ideologicamente consanguíneo? Mera cortesia?
Independentemente do que possa estar a acontecer na cena política e nos seus bastidores, a verdade é que, fora dos pontuais cumprimentos protocolares, não há troca de simpatias entre partidos. O objectivo e a missão de um partido político é a conquista do poder. Portanto, nesta perspectiva, todos os outros partidos, por mais próximos que estejam na origem da sua doutrina, são considerados como adversários a quem se impõe retirar eleitores e, de preferência, partidários.
Qual, então, o significado possível desta defesa de dama alheia?
O quadro deve ser visto à luz do horizonte 2006, já perto, onde se projectam todas as estratégias eleitorais. Em 2006 os brasileiros vão às urnas eleger presidente, senadores e deputados. E as mexidas de aquecimento para a corrida já começaram.
Pretenderá o PC do B uma aliança estável com o PT? Não me parece provável e muito menos viável. Ao fim de pouco tempo de casados, estariam a brigar por quem engoliria quem.
O manifesto explicita a imposição de (...) "recompor a base de apoio político, persistir na construção da maioria parlamentar com base na concepção de um governo de coalizão" (...). Desejará o PC do B alguns lugares na futura Administração, caso Lula/PT ganhe de novo? Mesmo que a hipótese dessa vitória não fosse neste momento bastante duvidosa, é impensável uma plataforma desse jeito. Lula/PT não tem lugares para distribuir, a menos que: a) os retire ao PMDB, o que seria um suicídio político; b) os retire ao PT, o que seria lançar mais lenha na fogueira das perturbações internas do seu partido.
Parece, pois, que nem de imediato nem a prazo o PC do B possa obter alguma vantagem palpável por parte do PT, através da feitura e divulgação deste manifesto. Mas pode, isso sim, estar a tentar recompor a face perante o eleitorado, particularmente do eleitorado que possa ser sensível e receptivo às propostas de esquerda.Procurando lavar a imagem de descrédito que a acção governativa tem trazido para as ideologias mais à esquerda e respectivos partidos, está a emprestar ao outro um colete de salvação. Que o outro se salve para que ele possa salvar-se. A sua sobrevivência passa, em parte, pela sobrevivência do outro.
É assim que entendo a vinda a terreiro do PC do B. Porém, há aqui um risco a ter em conta: esta colagem ao PT poderá tornar-se no efeito do travão na derrapagem, isto é, quanto mais elogiar Lula/PT naquilo que a opinião pública condena, mais probabilidade terá o PC do B de se afundar com ele.
Há momentos na vida das pessoas e dos grupos em que o silêncio é mais valioso do que o melhor dos discursos.
Mas com certeza que tudo isto não deixou de ser já reflectido e pesado pelos responsáveis pela estratégia do PC do B.



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